Li um artigo interessante sobre os
chamados Conditional Cash Transfer
Programmes, ou CCTs, dos quais o
nosso Programa Bolsa Família (PBF) sobressai como o mais abrangente e de maior
volume. O artigo, 21st
Century Welfare, foi publicado na New
Left Review e pode ser acessado em http://newleftreview.org/II/84/lena-lavinas-21st-century-welfare.
Resumindo
a história, a autora comenta os programas que proliferaram, na América Latina, a
partir do final da década de 1990, como uma forma de remediar uma das grandes
consequências das políticas neoliberais do período anterior – o aumento da
pobreza. Os CCTs têm em comum o
repasse de recursos em troca de determinado comportamento, seja a presença de
filhos na escola, a frequência em postos de saúde, etc.
No
Brasil, sabemos que a ideia surgiu em escala municipal, em 1995. Em vista dos
resultados positivos, o governo FHC encampou a ideia, tornando-a uma política
federal, embora de alcance restrito, abrangendo apenas um milhão de famílias até
2002. No governo Lula, nasce o PBF, o qual chega a alcançar 13,5 milhões de
famílias em 2012.
E
hoje o PBF é o que é: o maior cabo eleitoral do PT, um programa de viés
populista que serve aos interesses de manutenção do poder da esquerda.
Será
que é isso mesmo? A autora não entra no mérito eleitoral dos CCTs, mas chama atenção para um dado que
passa muito longe dos debates: esses programas todos – e o PBF não é exceção –
não servem, fundamentalmente, às bandeiras históricas da esquerda, mas sim da direita.
Criados a
partir de dois conceitos econômicos gerados nos EUA, targeting (em linhas gerais, a ideia de que políticas sociais devem
atingir parcelas claramente determinadas da população, de modo a evitar
desperdício e maximizar a utilidade de cada cidadão) e human development (segundo o qual o grau de desenvolvimento de um
Estado é função do seu “capital humano”, e não, necessariamente, de um quadro
estrutural de dependência) os CCTs chegaram
à América Latina no Chile de Pinochet. Nos anos 2000, os novos governos de
esquerda adotaram a ideia como sua, com apoio entusiástico do Banco Mundial e
de outras instituições financeiras globais e com suporte dos recursos
gerados pela alta das commodities.
E
qual foi o resultado? A pobreza regrediu na região. A valorização real dos
salários certamente ajudou bastante, mas o fato é que, apenas no Brasil (onde o
salário mínimo teve um ganho real de 94% de 2001 a 2012) a parcela pobre da
população caiu de 48%, em 2001, para 26%, em 2011.
O
problema é que, enquanto isso, o investimento em saúde não avançou. O mesmo
vale para a educação. Como consequência, no Brasil, onde 86% dos domicílios têm pelo menos um
telefone celular e cada vez mais pessoas têm máquinas de lavar e computadores,
o número de casas com acesso a saneamento e a água potável permanece estável –
e baixo. O mesmo vale, mutatis mutandis,
para grande parte da América Latina.
Resumindo,
o Governo dá dinheiro em troca de que o cidadão pobre comprove sua “responsabilidade”, acessando serviços básicos, só que o próprio Estado não provê esses serviços de
forma adequada. Qual a solução? A privatização dos serviços, claro. Agora há
demanda – o sujeito que era pobre e ignorante tornou-se menos pobre e menos
ignorante... Ele pode e quer consumir serviços básicos que deixam de ser
direitos para tornarem-se produtos.
Em 2010,
os gastos com educação, no Brasil, chegaram cerca de 1% do PIB; saneamento,
0,1%; moradia, 0,8%. Um ano antes, o investimento público em saúde alcançou 3,5%
do PIB – enquanto o privado chegou a 5,3%. Ao cidadão, resta recorrer a quem
pode oferecer, e, para isso, ele pode contar com um sistema financeiro em plena
expansão – basta notar que, em 2003, o crédito alcançava 23% do PIB, tendo
atingido a marca de 49%, em 2011.
“Dessa
forma, um largo consenso foi forjado em torno da ideia de que vale a pena
implementar os CCTs – contribuiu para
tanto o fato de eles serem baratos, fáceis de manejar e recompensadores do
ponto de vista político. Contudo, eles permanecem instrumentos ad hoc, desvinculados de direitos legais
e institucionalizados. A distinção é crucial: ao invés de serem uma dimensão de
um sistema de proteção social universal mais amplo, tais programas fortalecem o
princípio da seletividade, mirando os pobres como categoria residual, enquanto
insistem que eles assumam responsabilidade individual por seus destinos – assim
contribuindo para diminuir solidariedade e coesão sociais. Os esquemas também
são desenhados para estender a comoditização, por um lado, dispensando recompensas monetárias aos pobres em troca da sua participação como
consumidores e, por outro, oferecendo aos governos um álibi para reduzir a
provisão de bens públicos. Dessa forma, abrem caminho para um recuo do bem
estar social ao invés da sua expansão.” (p. 38)
Garantir
renda mínima é muito diferente de promover equidade e convergência. As
transferências de renda amparadas pelo recurso ao crédito garantirão segurança
suficiente ao cidadão a ponto de preencher o espaço deixado por um Estado que passa a
oferecer apenas os serviços mais básicos?
Da minha
parte, penso que o raciocínio serve como alerta. Não era necessário ler o
artigo pra saber que transferência de renda não substitui investimento em
serviços básicos; mas, talvez, tenha sido necessário para saber que a má
administração de um PBF esconde um risco enorme.
É inegável que a transferência de renda tem
tido grande mérito no Brasil, representando medida emergencial e necessária – embora seu
relativo impacto sobre a renda dos mais pobres perca boa parte do brilho ante
seu impacto quase insignificante sobre a desigualdade. Contudo, o fundamental é investir mais e melhor em saúde,
educação, moradia. As redes varejistas, que tanto têm a agradecer ao governo, vendem um conforto relativo, sim, mas não igualdade de condições e de oportunidades. Para
que uma sociedade possa garantir sua saúde, o Estado não pode ceder à
pressão – e à tentação – de ceder determinados espaços a interesses privados em
troca de benefícios imediatos, porém menores.
Sobre esse tema, especialmente sobre a dimensão política do PBF - e do mecanismo de sustentação, em sentido amplo, do governo PT -, vale a leitura de Os sentidos do lulismo, de André Singer.
