terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Cinzas do Norte, Milton Hatoum.


Gosto muito da prosa do Milton Hatoum. Pra mim, parece sólida e estável... As descrições são densas. É como se, no meio da trama, das falas e das ações, ele fosse construindo um cenário que é quase um personagem – que é, talvez, mais do que um personagem. Manaus, seus rios e árvores, suas ruas, casas. A gente, os cheiros, os sabores... O cenário está ali, e nada do que se diz ou se faz está fora dele.
Pra mim, esse é realmente um feito grandioso para um escritor.

Assim como em Dois irmãos, a narrativa se oferece abertamente a uma leitura psicanalítica. Um menino enganchado no desejo de sua mãe. Três homens – três pais – o assombram, incapazes de livrá-lo da sua prisão. Em um deles, a lei que devora, violenta, agride até onde pode; em outro, o prazer desmesurado, o descontrole e a dissipação; no terceiro, a instrumentalização das paixões, um caráter maleável sempre em busca de vantagens. E o menino foge de um para outro, sem jamais encontrar abrigo. Seu nome, sugestivamente, é Mundo.
E tudo isso nos vem através de um amigo que observa mais ou menos de perto. Uma voz tranquila, mas opaca. Quem é Lavo? É impressionante o quão pouco nos oferece a seu respeito... Tudo que sabemos são pequenos fatos; intuímos sua idade, seus interesses. Sabemos que ele não julga e que ama seu amigo. Mas não se envolve como os outros, mantendo sempre a razão. Parece ser - é claro - o ideal do próprio autor.

Gostei bastante da leitura, embora talvez não tanto como Dois irmãos, que achei verdadeiramente impressionante – talvez por ter sido o primeiro livro do autor que li. Os dois têm muito em comum.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

I.

A gente vai ficando velho e nem percebe.

Outro dia, voltava pra casa, como fazia sempre. Primeira, segunda, terceira, ponto morto. Primeira, segunda, terceira, quarta, ponto morto. Primeira, segunda, ponto morto. E assim vai. Não tinha ligado o rádio. Para evitar o ruído do trânsito e o calor do fim de tarde, ar condicionado. Sozinho no carro. Ponto morto.

Aí é fácil pensar na vida. No que fez, no que deixou de fazer. Nos problemas do dia. Essas coisas.

Criança em avião é um saco. Não fica quieta. Criança em avião. Criança. Eu já não sou criança há muito tempo. Era bom ser criança, parece. Outro dia vi um garoto em um restaurante. Comia e fazia caretas pra ninguém. Camisa de time de futebol. Era bom passar a tarde jogando bola quando eu era criança. Saía do colégio com uns amigos e ia pra casa de alguém. Uma quadra, de preferência não das grandes. Três, quatro na linha e ninguém queria ir pro gol. O futebol era jogo de oportunidade... De vez em quando ela surgia e eu aproveitava e era feliz comigo mesmo. Satisfeito com o gesto, com o chute. Relembrava depois.

Criança em avião é um saco.

Você bota a criança no avião uma vez e ela atrapalha, invade espaços. Você bota a criança no avião duas vezes e ela fala alto, incomoda. E de novo. E de novo. Mas aos poucos ela vai cedendo. Ela que nasceu pra jogar bola na quadra, ela que encontrava satisfação em um único gesto, ela se acomoda, por fim, naquela poltrona cinza, naquela poltrona repetida 168 vezes. E acaba chegando a hora em que a única coisa que ela é capaz de achar, de encontrar, de desvelar-se para, é o seu próprio desconforto.

Primeira, segunda, terceira, ponto morto. Oportunidade é abrir a janela, sentir-se parte do entardecer, olhar o céu que não é nem antes, nem depois. Um momento pra guardar sem pensar.