Gosto muito da prosa do Milton Hatoum. Pra mim,
parece sólida e estável... As descrições são densas. É como se, no meio da
trama, das falas e das ações, ele fosse construindo um cenário que é quase um
personagem – que é, talvez, mais do que um personagem. Manaus, seus rios e
árvores, suas ruas, casas. A gente, os cheiros, os sabores... O cenário está
ali, e nada do que se diz ou se faz está fora dele.
Pra mim, esse é realmente um feito grandioso
para um escritor.
Assim como em Dois irmãos, a narrativa se oferece abertamente a uma leitura psicanalítica.
Um menino enganchado no desejo de sua mãe. Três homens – três pais – o
assombram, incapazes de livrá-lo da sua prisão. Em um deles, a lei que devora,
violenta, agride até onde pode; em outro, o prazer desmesurado, o descontrole e
a dissipação; no terceiro, a instrumentalização das paixões, um caráter
maleável sempre em busca de vantagens. E o menino foge de um para outro, sem
jamais encontrar abrigo. Seu nome, sugestivamente, é Mundo.
E tudo isso nos vem através de um amigo que
observa mais ou menos de perto. Uma voz tranquila, mas opaca. Quem é Lavo? É
impressionante o quão pouco nos oferece a seu respeito... Tudo que sabemos são
pequenos fatos; intuímos sua idade, seus interesses. Sabemos que ele não julga
e que ama seu amigo. Mas não se envolve como os outros, mantendo sempre a
razão. Parece ser - é claro - o ideal do próprio autor.
Gostei bastante da leitura, embora talvez não
tanto como Dois irmãos, que achei
verdadeiramente impressionante – talvez por ter sido o primeiro livro do autor
que li. Os dois têm muito em comum.